O CACHORRO QUE CONSEGUIU EXPOR AO MUNDO A CRISE MORAL DA
HUMANIDADE
As comunidades urbanas sempre se
serviram da filosofia, em especial os estudos sobre ética e moral, no intuito
de construir sociedades racionais, cujo objetivo seria atingir o bem comum através da justiça e do Direito.
Ao passo que essa parece ser
nobre ideia, também admite que é necessário um esforço para que os membros das
sociedades urbanas sejam pacíficos, justos e solidários. Para vivermos
confinados nas cidades, precisamos de normas que harmonizem a convivência
social e de um sistema estatal que imponha essas regras. Do contrário, o ser
humano tende a permanecer no modo sobrevivência, sem a consciência que
transcende seus interesses pessoais.
Daí, denota-se que o homem
afastado da liberdade na Natureza, perde-se no desespero de sobreviver em um
sistema no qual a grande massa de pessoas é apenas peça de uma gigantesca
engrenagem. Nesse contexto, instala-se o lado mais primitivo no comportamento
das pessoas, por isso, a necessidade de um ordenamento jurídico com regras
complexas impostas a todos os cidadãos sem exceção.
Ocorre que, por ser financiado
por interesses de alguns membros com maior poder aquisitivo, os ordenamentos
jurídicos, não raramente, são injustos, posto que não se aplicam de forma
igualitária a todos e esse é um outro problema. Alguns membros da sociedade têm
privilégios que não abraçam o restante da sociedade, o que acaba criando
sentimentos de impotência, insegurança, injustiça e revolta. No decorrer da
correria dos dias, esses sentimentos ficam incubados no seio social, mas quando
acontece um crime brutal contra um ser amado por uma coletividade, tudo vem à
tona: as injustiças, os privilégios, a angústia em viver em uma sociedade
desigual, classista, elitista, racista, homofóbica, machista e, principalmente,
ESPECISTA.
Nesse contexto, o caso do cão
Orelha explodiu a revolta popular contra um antigo sistema de privilégios e
injustiças, direcionadas tanto à massa de pessoas quanto aos vulneráveis como
os animais.
Se para os humanos é difícil
viver em um sistema onde a vida de alguns vale mais do que a de outros, para os
animais é brutal, pois estes são os mais vulneráveis dentre os vulneráveis.
Mesmo o humano mais miserável consegue explorar e maltratar os animais.
Assim, o crime ocorrido contra
Orelha, o cão comunitário amado pelos moradores da Praia Brava em Florianópolis
fez abrir a ferida encoberta pelo cotidiano. Além da compaixão, o povo mostrou
seu cansaço diante das injustiças de um sistema inseguro, pesado e comandado
por interesses pessoais de poucos. O Orelha, abençoado pelas energias mais
puras de amor, conseguiu unir uma nação que estava dividida, fez refletir até o
mais anestesiado dos cidadãos. A comoção gerada foi retorno à humanidade pura.
Melhor, Orelha mostrou que os
animais precisam ser considerados com seriedade e comprometimento enquanto
cidadãos. Apesar da lei brasileira não ter acompanhado a realidade dos fatos
admitindo a personalidade dos animais, o costume está mostrando que esses indivíduos,
definitivamente, não são coisas semoventes e considerá-los dessa forma é o
retrato vergonhoso do atraso legal.
É assustador que a Constituição
Federal admita que animais sofrem e o código civil os classifique como coisas
semoventes, bem como a lei de crimes ambientais os trate como objeto do crime de
maus tratos e não como vítimas. Um ordenamento jurídico contraditório não é
sério. Mesmo assim, se a Lei Maior admite a senciência animal, os dispositivos
que tratam os animais como coisa, bens ambientais ou objetos de crime devem ser
considerados inconstitucionais, pois não foram recepcionados pela Constituição
de 1988.
Infelizmente, enquanto não se declara a inconstitucionalidade das normas tortas, os agentes públicos seguem tratando seres de outras espécies como se fossem desprovidos de valor. Esse desprezo de policiais, delegados, juízes, promotores, gestores públicos, ministros, legisladores, etc. agrava a violência, servindo como impulso para o cometimento de massacres contra os animais, a maioria, inclusive, institucionalizados por normas administrativas, as quais blindam os horrores que se fazem com animais explorados como produtos de comércio.
Começa nas brandas leis penais e
civil e termina na inércia das autoridades em solucionar e punir ilícitos cometidos
contra os mais inocentes dentre os inocentes.
Mas, de repente surge um crime que reúne todos os ingredientes para ser um espelho da nossa incapacidade moral: o assassinato mediante tortura de um cãozinho dócil por adolescentes ricos e todo o caminho de corrupção e proteção dos criminosos por serem oriundos de famílias abastadas e tradicionais. A sociedade, ao olhar para esse reflexo, explodiu em uníssono grito de basta!
Basta de impunidade de homens
brancos, heterossexuais e ricos, basta de maus tratos aos animais, basta do especismo
estrutural que apodrece a sociedade humana.
Mesmo com a gigantesca comoção
social, que atravessou fronteiras de vários países, a polícia catarinense se
calou, se acovardou e entregou ao povo um resultado duvidoso, frágil e de
difícil compreensão. Segundo os delegados à frente do caso, dos seis meninos
ricos que participaram do crime, só restou um culpado, o adolescente que,
curiosamente, vem da família menos abastada. Não houve menção a nenhuma das
provas anteriormente produzidas, as quais foram a motivação do procedimento
investigatório. Muitas perguntas sem respostas, um vídeo novo apareceu para
incriminar apenas o suspeito cuja família não tem a tradição das outras
envolvidas no massacre do cão. Que segurança jurídica podemos esperar em um
país que apresenta um resultado escancaradamente corrompido? Como o Estado
brasileiro permite que isso aconteça? A atrocidade cometida contra um inocente
saindo impune aos olhos de toda uma sociedade que pede apenas o básico: que
todos sejam iguais perante a lei. O Orelha merece respeito, os culpados merecem
ser punidos na medida de sua culpabilidade.
Ainda que os criminosos sejam adolescentes e teoricamente, inimputáveis, sua periculosidade está explicita na covardia brutal cometida por motivos fúteis e eles devem sofrer as consequências independente de sua condição sócio econômica. DURA LEX, SED LEX – a lei é dura, mas é a lei. O jargão vale para todos os cidadãos indistintamente, ou, pelo menos é o que orienta a Carta Magna de 1988.
Tragicamente, para crimes cometidos contra os animais, a aplicação da lei, independente do autor do crime, se dá ao sabor da interpretação daqueles que estão incumbidos do poder de punir. No caso de criminosos privilegiados, ela nunca se concretiza.
Apesar dos pesares, o recado do
cãozinho Orelha é claro: precisamos reagir e criar uma nova realidade, em que
todos os seres sejam iguais perante a lei, livres, felizes e respeitados. A lição que ele deixou em milhões de corações
e mentes assegura que sua morte não foi em vão.
Descanse em paz, Orelha, seu
legado ficará eternizado nesse mundo cruel.

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